O Puerpério
- Mara Oliveira

- 27 de abr. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de abr. de 2024

Perguntam-me se estou feliz, com os olhos inundados de amor... Como lhes digo que "feliz" não seria o termo que usaria para categorizar as coisas que sinto? Como lhes digo que amo loucamente o meu bebé e que sempre que olho para ele o tempo pára, mas o que faço com os momentos restantes é sobreviver? Como lhes digo que há uma tristeza profunda que nasce juntamente com este amor avassalador?
Sabia do baby blues e das lágrimas fáceis pelos motivos mais absurdos, bem como sabia do cansaço extremo, da privação de sono e da culpa gigantesca que teima em sussurra-nos ao ouvido que estamos aquém enquanto mães. Só não sabia desta ausência de entusiasmo, desta falta de esperança e fé no futuro e desta apatia que torna todos os dias iguais.
Este ciclo de dar de mamar, mudar fralda, adormecer que se repete vezes sem conta e se torna praticamente automático. Não me interpretem mal, eu adoro cuidar do meu filho e só o vislumbre do seu olhar (o mais bonito do mundo) aquece-me o corpo e a alma. Mas o que nasce em paralelo com todas estas coisas bonitas tem o peso do mundo e é uma avalanche de emoções novas que não sabemos como processar e gerir.
O puerpério é esta travessia no deserto que por muito que nos informemos sobre todas as transformações físicas, psicológicas e emocionais que vão acontecer, quando as vivemos é sempre muito além do expectável. Por muito que te prepares, nunca estás verdadeiramente preparada para esta transformação avassaladora.
Sobrevivemos claro! É o que fazemos sempre, sobrevivemos. E o velho cliché é verdade... Lentamente vai ficando menos difícil e torna-se mais fácil respirar. Entretanto enchemos os pulmões e vamos gerindo e chutando a bola lá para a frente. E se eventualmente sentirmos que as ondas se tornam muito maiores e que continuamos a afogar-nos, é crucial procurarmos ajuda e apoio para subirmos à tona!
Porque a sensação de solidão é gigante, mas estamos todas a atravessar o mesmo deserto e se dermos as mãos torna-se um bocadinho menos solitário.

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