A Amamentação
- Mara Oliveira

- 19 de jul. de 2024
- 3 min de leitura

Se a amamentação é assim tão natural intuitiva eu questiono-me onde estava afinal o meu instinto maternal, pois no que toca às maminhas serem usadas para esse fim, esse caminho foi deveras conflituoso.
Abri uma guerra contra as mamocas (ou as mamocas contra mim, vai se lá saber) e como se não bastasse o facto de nunca terem sido dignas de um bom decote, ainda tinham que falhar na sua única função - a de alimentar o meu filho.
Não posso dizer que não foram produtivas, pois com a descida (ou subida) do leite a quantidade era de tal ordem que me deram algum trabalho a fintar uma possível mastite. Mas a festa pouco durou e em contrapartida, decidiram ser umas drama queens, hiper sensíveis e ao fim de 3 dias de amamentação os meus mamilos já pediam socorro.
Estava eu ainda na maternidade, sem dignidade alguma (consta que dias depois saíam duas pessoas de fralda, do hospital, e nenhuma delas era o meu marido), e já eu chorava baba e ranho, qual Maria Madalena, cada vez que o bebé precisava de comer.
"É normal! As primeiras duas semanas são assim!"
É normal eu chorar compulsivamente cada vez que amamento o meu filho? É que a malta vendeu-me isto como um processo bonito e prazeroso!
Escusado será dizer que não melhorou, não ficou mais fácil nem menos doloroso. Foi escalando e tínhamos um bebé com fome que só chorava e não dormia, um pai que não sabia para que lado se virar e uma mãe em privação de sono, com os mamilos todos gretados, no limiar da loucura!
Imaginem terem os mamilos lacerados e a sangrarem (literalmente). Terem dores tão horríveis quando amamentam, que não conseguem evitar uma choradeira pegada e uma tensão e stress gigantes. Um bebé que só chora, não consegue dormir e não ganha o peso devido, pois o que ele tem é fome (descobri eu mais tarde) e terem os profissionais de saúde a dizerem-te "tem que encurtar as mamadas e amamenta-lo de 2 em 2 horas"... Desculpe, como?!
Acho que foi no limiar da loucura que eu descobri o fundamentalismo que existe à volta desta questão da amamentação! Esta romantização extrema do aleitamento materno e um escrutínio das mães que não amamentam ou não conseguem amamentar. Há uma mensagem subliminar, mas extremamente violenta, de que darmos de mamar ao nosso bebé é a nossa obrigação e responsabilidade e tem que funcionar dê por onde der. E esta negligência para com as mães, esta falta de acolhimento e empatia causa um sofrimento desmedido e honestamente... Desnecessário!
Numa situação destas não há grande discernimento por parte da mãe. Ela está assoberbada a lidar com a impotência e a culpa que sente, bem como a tentar a todo o custo alimentar o seu filho - nem que isso lhe custe a saúde mental. Tivemos um pai que do alto da sua estabilidade emocional me chamou à razão e não desistiu de procurar um profissional que não fosse fundamentalista e que hasteasse uma bandeira branca, para que esta mãe pudesse permitir-se a parar uns dias para se cuidar.
Suplementamos com fórmula (teve mesmo que ser) e uns dias depois, já com mamilos saudáveis, tendo sempre utilizado a bomba extratora como aliada para continuar a amamentar o meu filho com leite materno e continuar a estimular a sua produção, voltamos a pô-lo na maminha. Aos poucos foi-se adaptando e as dores praticamente desapareceram. No entanto (e até hoje), mesmo depois de várias tentativas, nunca conseguimos que a amamentação fosse exclusiva. Nunca foi suficiente.
Eventualmente fiz as pazes comigo mesma e aceitei que fiz o melhor que podia. E o melhor que eu podia ter feito era alimentar o meu filho. Porque podem vir todos os especialistas do mundo, ninguém me vai convencer que ter o meu filho com fome é melhor do que introduzir fórmula.
E talvez esta minha opinião seja polémica, mas no final do dia acho que acima de tudo a amamentação deve ser uma escolha e precisamos acolher as mães, em vez de as julgarmos. Porque este processo não é natural e intuitivo para todas nós e muitas vezes quando não resulta, não é por falta de vontade, dedicação ou amor!
Deixem as mães em paz. Obrigada. 🩷

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